1. Dois fatos sobre João
João vai morrer no final.
João não vai desvendar o principal mistério dessa história.
2. O escritor se defende da acusação de spoilers
Dizer que João vai morrer ao fim dessa história não pode ser considerado uma revelação prematura. Ou estaria eu contando algum spoiler se dissesse que você também morrerá no final? Spoiler seria antecipar o momento e a causa que por fim o levarão embora.
Há um mistério que tem ocupado os dias de João. Ele não vai resolvê-lo. Chegaremos ao fim dessas linhas da mesma maneira como as iniciaremos: ignorando a causa desse enigma. Tampouco isso me parece spoiler. A maioria das coisas nos passa assim, sem explicações. Uma vez, por exemplo, vi um vulto passar por baixo da porta, e não havia ninguém em casa. Poderia ser uma assombração ou um simples reflexo dos carros na rua. Pergunte se eu descobri a resposta. Não descobri nem essa nem várias outras. Pobre João: vai morrer sem saber quem lhe está pregando uma terrível peça. E se ele próprio não sabe, quem sou eu para saber?
3. O mistério de João
Tudo começou quando João estava se arrumando para ir a uma festa de aniversário. Foi ao seu armário, em busca de uma camisa que lhe caía muito bem, e eis o início de tudo: a manga estava cortada. Não era rasgada; era mesmo cortada. Bem rente à parte que se encerrava nos ombros. Cortada com esmero, delicadeza. Como seria isso possível? João não sabia. E continuaria sem saber.
João enlouqueceria com essa coisa de mangas cortadas, mas não ainda. Como fazem os homens sensatos que não querem perder um imenso tempo matutando a respeito de um enigma insolucionável, João simplesmente pegou outra camisa e foi-se embora para a festa. Bebeu, comeu, bebeu mais ainda, curtiu seu domingo, mas, no dia seguinte, no auge da ressaca da segunda-feira, ao vestir-se para o trabalho, o que encontrou? Ou melhor: o que não encontrou? Uma manga. Outra peça sua fora atacada.
Devo dizer que, mesmo na segunda vez, ele não gastou mais do que alguns minutos encarando a camisa. Como esta o encarava de volta e nenhuma solução parecia advir, João deu o caso por encerrado e pôs outra roupa. Entretanto, na terceira vez que uma vestimenta sua apareceu cortada, cogitou duas possibilidades: ou estava enlouquecendo ou o material do tecido era mais vagabundo do que seu preço lhe fizera crer.
Naquele mesmo dia, João foi à loja e comprou uma nova camisa. Dessa vez, tratava-se de um material indubitavelmente de qualidade. Voltou para casa satisfeito com a aquisição, embora algo em seu íntimo lhe revelasse que isso de nada adiantaria. Ora, se as mangas das outras peças tivessem simplesmente caído, haveriam de estar jogadas no chão do quarto ou no fundo do armário. No entanto, não. Elas simplesmente desapareceram. É claro que o mesmo ocorreria – e ocorreu – com a nova compra.
No dia em que se deu conta de que a mercadoria de muitos reais também estava com a manga cortada, dirigiu-se à portaria de seu prédio. O porteiro, notando a fisionomia tensa e abatida de João, perguntou-lhe se havia algum problema. João olhou para um lado, olhou para o outro, certificou-se de que ninguém o estava ouvindo e falou:
– Estou com um probleminha, sim. Aliás... Um problemão. Tem alguém entrando no meu apartamento enquanto não estou em casa.
– Como? – perguntou o porteiro, num sobressalto.
– Ou enquanto não estou em casa ou quando estou dormindo, não sei dizer. Mas veja só o que me acontece.
João apontou para a camisa de manga cortada que vestia seu corpo. O porteiro não pareceu entender o que o morador lhe estava tentando dizer, de modo que João teve de se explicar:
– Todo dia uma manga minha desaparece. Sim, some. Não está caída nos quartos, no armário, na máquina de lavar, em lugar nenhum. Desaparece, simplesmente. Só pode ser uma brincadeira de mau gosto que estão fazendo comigo.
O porteiro não soube o que responder. João repetiu a história, incerto de que o funcionário do prédio o tinha compreendido.
– Nesse caso – esboçou o porteiro, num tom vacilante –, acho que devemos dar uma olhada nas gravações das câmeras de segurança.
– Por favor, é exatamente isso o que eu desejo. Bastaria olhar as gravações dos últimos cinco dias. Foi precisamente no domingo que isso se iniciou.
Foram ambos à salinha onde ficavam os registros das câmeras. O funcionário responsável pelas gravações perguntou a João e ao porteiro se era mesmo necessário fazer essa vistoria àquela hora, numa sexta-feira, mas, dada a resposta efusiva de João, foi de má vontade recolher os vídeos solicitados.
O porteiro voltou ao seu posto, e João e o funcionário mal-humorado passaram um longo tempo olhando as tais gravações. Esgotadas as possibilidades, João voltou ao seu apartamento. Na passagem, o porteiro lhe perguntou:
– Encontrou algo, seu João?
– Nada!
João passou o sábado todo em frente ao armário onde guardava suas roupas. É óbvio que nada aconteceu. Na cozinha, entretanto, uma manga – a fruta – apareceu cortada repentinamente. Quem quer que estivesse pregando aquela peça a estava executando com maestria.
Na segunda-feira, João teria uma importante reunião no trabalho. Eis que sua última camisa com mangas apareceu rasgada. Levou as mãos ao rosto. Teria que vestir uma roupa casual. Não sabe se por isso ou por seu abalado estado emocional, o encontro profissional foi um fracasso. Voltou para casa determinado: ia se mudar de residência.
Chega, acabou! Ligou para o locador e disse que sairia daquele apartamento o mais rapidamente possível. Preferiu não comentar sobre o ocorrido, pois não queria parecer louco (já bastavam os funcionários do prédio!). Passaram-se vinte dias até encontrar um novo lar. Nesse ínterim, outras vestimentas apareceram com as mangas rasgadas, porém agora não mais as camisas – pois todas já haviam sido atacadas –, mas blusas casuais e até algumas jaquetas.
Casa nova, vida nova, mas não para João. Seus problemas não cessaram. Todo dia era a mesma coisa. Acabadas as peças superiores, começaram as calças a sofrer ataques. Todas viraram bermudas e, depois, nem mais isso. Foram aniquiladas. João previa o dia em que teria de andar nu pelas ruas. Mas isso não era o pior. O que queria era resolver o mistério. Essa pessoa que invadia sua casa claramente só queria se divertir às suas custas, pois não furtava absolutamente nada, nem um centavo.
Começou a pensar em explicações sobrenaturais. Isso era o que mais fazia sentido. Um fantasma, só podia ser isso. Vai ver era o próprio diabo o responsável por aquele escárnio.
Seu novo apartamento ficava no vigésimo andar. Definitivamente, não se tratava de ninguém que vinha pela rua. Repetiu para si mesmo: vigésimo andar. Olhou da varanda lá para baixo. Morrer não seria má ideia. Mais de um mês desde que isso tudo começara. Estava já completamente transtornado. E caso se suicidasse? Passou-lhe um pensamento não muito criativo, mas inevitável: "Quem sentiria a minha falta?". A conclusão, tampouco original, foi: "Ninguém".
Mas não ia se matar. Imagine se tacar do vigésimo andar e logo depois se arrepender. Em que pensa um suicida que reconsidera sua decisão imediatamente após arremessar-se ao nada? Em sua vida? Em seus entes queridos ou amigos? Em si mesmo? Ou será que esse pobre infeliz não pensa em coisa nenhuma, a não ser em buscar uma parede, um galho de árvore, a varanda de um vizinho, algo em que se possa escorar? Se for esse o caso, o desespero deve ser terrível, pois quanto mais ele cai, mais se dá conta de que nada o irá aparar. Nesse momento, resta-lhe apenas saber o instante de sua morte. Quando morre um coitado que se joga do vigésimo andar? Só ao cair no chão e estatelar-se no asfalto ou, antes disso, já durante a queda, a vida se esvai? João conclui que esse seria o seu próprio pensamento ao se atirar: tenho mais três, cinco ou vinte segundos de vida?
Terminado o devaneio, reparou que o casaco que vestia estava sem a manga. Ela fora cortada. Em seu próprio corpo.
4. A morte de João
Como todos já sabiam, João iria morrer. E morreu na Europa. Não foi suicídio. Era covarde demais para isso. Foi uma morte bem mais simplória: frio.
A fim de fugir da perseguição que sofria em seu próprio país, mudou-se para bem longe, para um país escandinavo. Chegara a passar cinco meses no apartamento brasileiro do vigésimo andar, mas antes que, num impulso, se tacasse ao ar e imediatamente se arrependesse, resolvera viajar para algum lugar muito distante. Calculara mal o tempo, entretanto. Aterrissou em seu exílio em pleno inverno. As perseguições não cessaram, as mangas continuaram sendo cortadas, e um dia seu corpo foi encontrado, em casa, todo encolhido, de camiseta e cueca, congelado.
E assim ele se foi. Tudo bem: sempre dissera aceitar qualquer tipo de morte, desde que não fosse na privada. Tinha horror de ser encontrado nu, no vaso sanitário, fazendo aquilo que todos fazemos longe dos olhos alheios. Então, está tudo certo. Se há vida após a morte, João deve estar aliviado, pois correra grande risco de ter morrido exatamente no banheiro, mas, sentindo seu corpo congelar, teve tempo de arrastar-se ainda até o centro da sala de estar – não se sabe se para pedir ajuda ou se para morrer em um lugar menos vergonhoso.
Sim, se há vida após a morte, João deve estar aliviado, não apenas por não morrer na privada quanto por ter, enfim, descoberto o enigma que tanto lhe perturbava. Quero dizer: imagino que depois da morte esses mistérios passem a fazer sentido. Mas não para nós, que estamos do lado de cá e nada sabemos.
Aliás, se o João-espírito conseguiu descobrir o mistério, é bom que também tenha revelado o significado dos versos encontrados no tapete próximo ao seu corpo, datilografados em letras garrafais:
Envolto ao nada,
eu volto ao nada.
Houve quem concluísse ter sido um bilhete escrito pelo próprio João, ao se suicidar. Mas, suicídio, não foi. Eu não sei quem escreveu tais palavras – já disse que a maioria dos mistérios é insolucionável –, porém repito que João era covarde demais para tirar sua própria vida. Isso é tudo o que sei. Eu garanto que ele morreu de frio, pois foi essa a conclusão a que a própria necropsia chegou. E maior prova que a autópsia, não há.