quinta-feira, 16 de maio de 2019

O último encontro

Marcaram um último encontro. Não pegava bem terminarem por mensagens de celular um relacionamento que durava tantos anos.

Para ela, o fim era um alívio. Para ele, o horror. Para ela, a felicidade de ver pela última vez aquele homem possessivo, sufocante, que ela já amara, mas que agora lhe parecia apenas um pesado fardo que a impedia de respirar. Para ele, o sucumbir do solo, o caos da solidão, o término do único namoro que tivera, o permanente distanciamento da pessoa que lhe ensinara não só a respeito do amor, mas também sobre a própria vida.

Ela conduziu a relação ao fim, dando vestes de consenso a um desfecho que somente a ela interessava. Ele, como em todos os anos ao lado daquela mulher, deixou-se levar, acreditou na versão da mútua concordância de que aquele namoro estava igualmente fazendo mal aos dois.

Marcaram em um pequeno restaurante, no local a que tantas vezes já foram juntos, no meio da rua em cujas extremidades ficavam suas casas. Embora fosse ela quem nunca mais quisesse vê-lo de novo, não foi dele que partiu a ideia daquele último encontro. Era ela quem gostava do prazer de vivenciar derradeiramente uma experiência que lhe desagradava. Quando trocara um emprego que odiava pela vaga que almejara, havia desfrutado do último dia na empresa que tanto asco lhe causava só para impregnar-se de todas as sensações ruins daquele local, com a certeza de que jamais as sentiria novamente. Quando, da mesma forma, mudou-se de um apartamento feio e barulhento para outro muito mais agradável, fez questão de passar o último dia inteiro de contrato deitada no chão do imóvel já vazio, ouvindo o som do trânsito e respirando o odor de mofo que por anos a acompanharam.

Para ele, evidentemente, aquele encontro era o oposto. Via-a para gravar na memória não o mal, mas a beleza daquela companhia que, dali a poucas horas, passaria a ser pouco mais que uma estranha. E, diferentemente da postura dela, em todas as situações em que ele se livrara de algo indesejado, nem sequer cogitava vivenciá-lo mais uma vez. Mas, ao contrário, quando encarava a despedida como o fim de um ciclo feliz, gostava de experimentar em uma última oportunidade todo o bem que aquilo lhe proporcionara, ainda que portasse o triste olhar de quem sabe estar diante de algo que já quase não mais lhe pertence, como no velório de um ente querido.

Durante o jantar, evitaram falar sobre o tema fundador daquele evento. Em vez disso, comentaram a respeito de meras frivolidades, já nutridos de certo distanciamento para com o outro, em um clima de sutil desconforto.

Paga a conta, ele viraria para a direita, e ela, para a esquerda. Voltariam aos extremos da rua, e essa rua seria como um mundo para eles. Já do lado de fora do restaurante, ele, que a via mais bela do que nunca, pediu-lhe um beijo. Ela, que o encarava como defronte a um homem feio e envelhecido, aceitou de bom grado: fazia parte da despedida de tudo de ruim que nunca mais experienciaria. 

Beijaram-se. Ele guardaria aquela sensação do toque da única mulher que amara; ela tampouco se esqueceria da felicidade de saber ser a última vez que encostava seus lábios na boca pendente e ressequida do homem que a enojava. Sem uma última palavra, viraram-se e seguiram seus caminhos: ela, com um sorriso no rosto, aliviada não só com o fim daquele namoro, mas também com a impressão de que ele não parecia tão triste quanto ela supusera – apesar do asco, ela o queria bem –; ele, com lágrimas até o queixo, não apenas destruído com o término da relação, mas esperançoso de que ela logo o procuraria a fim de reatar.