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segunda-feira, 8 de junho de 2015

O dia dos namorados literário

Durante milênios, escritores e pensadores declamaram o amor. Ah, se esses poetas soubessem que estavam fadados a virar citações de Facebook!


Com o dia dos namorados, já sabemos que veremos nas redes sociais citações e mais citações, verdadeiras ou não, de vários escritores. Nelas, leremos as definições de amor dos pobres autores que morreram e não estão mais aqui para se defender. O amor, que sempre esteve na ponta dos dedos dos romancistas, adquiriu inúmeras facetas ao longo dos anos. Como dizer que Dom Quixote amou Dulcineia da mesma forma que Bentinho amou Capitu? Mas as pessoas insistem em postar no Facebook que o amor é... O amor é nada. O amor é um nome que damos a algo que sentimos e não sabemos o que é nem se é parecido com o que o outro sente. Quando você diz para sua namorada que a ama e ela diz que também te ama, cada um está pensando em uma coisa diferente, assim como estão todos aqueles que vociferam esse nobre sentimento. O ser humano é essencialmente solitário porque nunca conseguirá se expressar com a precisão necessária para se fazer entender completamente. Lily, protagonista do estupendo “Travesuras de la niña mala”, do peruano Vargas Llosa, amava seu “niño bueno”, que, por sua vez, amava Lily, e um sentimento era totalmente distinto do outro. Imagine se a Lucíola de José de Alencar compartilharia do amor que a Gabriela do Jorge Amado tinha por Nacib. Ou pior: pense no que era o amor para Bukowski, Dostoiévski e Camilo Castelo Branco. Tudo amor. Tudo reduzido a um nome, quatro letras, algumas frases no Facebook e pronto: Clarice Lispector acabou de ter uma convulsão em seu túmulo.

Talvez, o correto não seja dizer que o amor é nada. Vai ver o amor é tudo. Ou, quem sabe, o amor é alguma coisa. É algo que a gente acha que sente, mas vai ver ninguém sente nada porque você não sabe o que eu sinto nem eu sei o que meu vizinho sente. Aliás, estou aqui a falar sobre o amor de Capitu sem a menor pretensão de achar que sei o que se passava pela cabeça de Machado quando escreveu o romance. Eu não sei nada do que é o amor para Machado e ele não apenas não sabe nada sobre o que é o amor para outra pessoa como nem mesmo sabe o que é o amor para a própria Capitu, que, mais que uma personagem, ganhou vida e virou alguma coisa que eu também não sei o que é.

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Esse texto foi publicado no Jornal Lago Notícias, em junho de 2015.

sábado, 21 de março de 2015

Contos: por que não lê-los?

Nunca entendi muito bem por que contos não encontraram seu espaço no mercado editorial. Eles têm tantas vantagens.


Os contos, para início de conversa, são pequenos, menores que romances. Depois, não exigem uma continuação. Uma coletânea de contos pode ser abandonada no meio sem o menor peso na consciência: basta você ler uns dois contos e não gostar deles. Exigem, portanto, um fôlego muito menor por parte do leitor. Os contos estão para a literatura como os curtas-metragens estão para o cinema: tinham tudo para ser o produto preferido do chamado homem contemporâneo, mas, por alguma razão que me escapa, veem-se marginalizados. Para não parecer que escrevo em defesa própria (afinal, sou um escritor de contos), vou citar dois contistas que li recentemente e que me agradaram muito.

O primeiro é o sergipano Antônio Carlos Viana, que já tem cinco obras lançadas, das quais li "Aberto está o inferno". Com uma pegada muito boa em seus textos, ele tem um quê de Bukowski tupiniquim. Os contos são tristes, talvez não no sentido que comumente se dê à tristeza (de um final ruim ou uma tragédia inesperada), mas no de algo mau que está ali presente, de forma permanente. Seus contos contêm um pessimismo de fundo, uma sensibilidade aguçada, o que acaba por deixar uma sensação ruim, mas acalentadora.

Depois, li o diplomata paranaense Mário Araújo, com sua coletânea "Restos". Mais poético e menos direto que Antônio Carlos Viana, tem sempre uma metáfora na manga. É o tipo de contista do cotidiano, aquele escritor que você nota que tem uma interessante interpretação dos fatos, das pessoas, de suas características mais singelas. Descreve bem diferentes tipos de brasileiros, cria situações críveis, muito bem narradas, tendo como temas recorrentes viagens e futebol. Por viver em Brasília, partilha conosco da mesma cidade, presente em alguns de seus contos.

Esses foram dois sujeitos que gostei muito de ler, mas há outros. O próprio Machado, para mim, foi melhor contista que romancista. Já ouvi que a situação de mercado dos contos não é mais tão má quanto antes, mas, verdade seja dita (agora, sim, falando em defesa própria, quem eu quero enganar?), eu ainda gostaria que melhorasse um bocado.

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Esse texto foi publicado no Jornal Lago Notícias em março de 2015. Essa e outras colunas podem ser acessadas em seu site.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

O filho eterno

Um título impactante, pesado, interpretado sob vários prismas, “O filho eterno” narra a história de um escritor que tem um filho com síndrome de Down. “O filho eterno” por causa da incompreensão temporal do menino? Ou por que assim é qualquer filho: eterno?


Esse pode ser um tipo de história bem chata: um pai que tem um filho com alguma deficiência e, juntos, eles conseguem vencer os medos e preconceitos da vida. Não é isso. Na verdade, nem posso dizer se eles venceram coisa nenhuma. O protagonista, sob cujo ponto de vista a história se desenrola (embora em terceira pessoa) é um sujeito culto, leitor de Nietzsche, ex-estudante de teatro, na batalha para ser um escritor (ou, ao menos, para ser lido). Sua cultura, proporcionalmente inversa à sua pouca maturidade emocional, é posta em xeque quando o médico anuncia que seu filho é mongoloide, termo em voga nos anos 80 e hoje em desuso. O aspirante a escritor (que nunca conseguiu se sustentar escrevendo, mas, sim, consertando relógios e sendo bancado pela esposa) vê-se imerso na vergonha de ter um filho Down. Desesperado, busca outros diagnósticos, todos unânimes: não é uma criança normal. A única esperança do pai passa a ser a morte do filho. Focado nas estatísticas de que crianças com Down tendem a falecer prematuramente, prende-se a esse pensamento para suportar a humilhação de ter um doente mental em casa, fruto de seus próprios genes. O garoto, porém, cresce, envelhece: o filho eterno.

Felipe (assim se chama o garoto, ao passo que o nome do pai nunca é citado) desmistifica, mas também desromantiza vários estigmas de portadores de Down. Sua relação paterna é ressignificada a todo instante e o próprio pai tem sua alma dissecada com minúcia pelo autor, Cristovão Tezza, que é catarinense, viveu em Curitiba, nasceu em 1952 e ainda é ativo no meio literário. "O filho eterno" é um livro recente, de 2007, vencedor de inúmeros prêmios (destaca-se um concedido pela Associação Francesa de Psiquiatria). Foi eleito pelo Globo um dos dez melhores livros de ficção da década. De linguagem extremamente elegante, já foi lançado em aproximadamente quinze países e é uma dessas obras que me deixam feliz por, de vez em quando, escantear os grandes clássicos e encarar romances contemporâneos. Tezza é como um autor historicamente relevante (a qualidade não deixa nada a desejar), só que falando do nosso tempo e da nossa terra (afinal, de bônus, ele ainda é brasileiro).

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Esse texto foi publicado no Jornal Lago Notícias em janeiro de 2015. Essa e outras colunas podem ser acessadas em seu site.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Até o dia em que o cão morreu

“Até o dia em que o cão morreu” não está entre os meus livros preferidos, mas está entre aqueles com que mais me identifiquei. Com raras exceções, seu narrador poderia ter sido eu. Qual o sentimento de quando se lê algo tão próximo do que você próprio é?


Você já deve ter passado por isso: cursou uma faculdade, se formou, saiu ou quis sair de casa, morar sozinho, mas, para isso, deveria prosseguir com o fluxo natural das coisas, isto é: trabalhar. Você tinha conhecimentos e habilidades para conseguir um trabalho, mas você não queria. Trabalhar é sempre um esforço que se faz para os outros, raramente é por uma causa que te diga respeito. Você só escolhe trabalhar porque isso é pré-requisito para algo que realmente te importa: morar sozinho, sua liberdade.

Você já deve ter ficado ansioso, agitado, ausente da sua zona de conforto, porque algo te retirou daquele cotidiano em que nada acontecia, da mesmice de todos os dias. Mas essa agitação, ao contrário do que pode acontecer com muitas pessoas, não te faz feliz. O que você mais queria era sua apatia de volta. Do mesmo modo, você já deve ter gostado muito de uma pessoa, mas não queria oficializar nenhum relacionamento, justamente porque esse compromisso seria um eterno adeus àquele estado apático que você tanto amava. Um namoro seria ceder a uma infinita ansiedade, pela qual você não estava preparado e que, definitivamente, você não desejava.

Você já deve ter passado horas na janela do seu apartamento, vendo uma paisagem feia, telhados sujos, carros numa velocidade estúpida. Você já deve ter pensado que isso era solidão, que você precisava de uma companhia, mas que, afinal de contas, era melhor ficar sozinho mesmo. Solitário, apático e inerte: assim, você estava feliz. Do mesmo modo, você andava pela rua sem rumo, somente porque não queria voltar para casa, estando feliz com seus próprios pensamentos e com suas pernas que te guiavam sabe-se lá para onde.

Se você está pensando que não, que nunca passou por isso, que eu sou um doido, talvez não vá gostar de "Até o dia em que o cão morreu" (adaptado para os cinemas com o título "Cão sem dono), romance do brasileiro Daniel Galera, 35 anos, que o publicou quando ainda tinha vinte e poucos, o que, por si só, já salta aos olhos. No meio literário, constituído por velhos e mortos, ler uma obra-prima de um garoto desses é um sopro na alma.

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Esse texto foi publicado no Jornal Lago Notícias em novembro de 2014. Essa e outras colunas podem ser acessadas em seu site.

domingo, 15 de junho de 2014

O dito pelo não dito

Uma das partes mais importantes de um livro são as conversas, as falas dos personagens. Todo mundo já deve ter passado pela experiência de ler aqueles livros de escrita corrida, sem diálogos, e sentir que a coisa é mais pesada, flui bem menos do que textos com conversações. Quando isso acontece, o escritor tem que ter muito mais habilidade para não aborrecer o leitor. 

Cada autor tem seu jeito de transcrever as falas de seus personagens. Por exemplo: tem os que usam aspas e os que preferem travessão. Dentre estes últimos, há autores que não delimitam onde acaba a fala do personagem e começa a do narrador e outros que deixam tudo marcadinho. Além disso, existe a possibilidade do discurso indireto. 

Olhem só quantos jeitos diferentes de falar que Fulano, ao entrar no carro, disse estar atrasado: 

1) “Estou atrasado”, disse Fulano, entrando no carro. 
2) Fulano entrou no carro e disse “estou atrasado”.  
3) Fulano falou que estava atrasado e entrou no carro. 
4) – Estou atrasado – disse Fulano, entrando no carro. 
5) – Estou atrasado disse Fulano ao entrar no carro. 

Mas bem, todo esse blá-blá-blá é para dizer que, lendo “O Testamento do Sr. Napumoceno”, do cabo-verdiano Germano Almeida, me deparei com um método inovador (eu, pelo menos, nunca tinha visto) de transcrever a fala dos personagens. Vejam esse trecho, extraído das páginas 133 e 134: 

“E nesse sentido fizera algumas tentativas disfarçadas, nada de pedidos formais, apenas uma ou outra indireta a alguns membros dos corpos sociais do tipo qualquer dia vou conhecer o vosso retiro, parece ser lugar alegre e de bom convívio, S. Vicente está fraco de diversões, só nas fraldas já se encontra qualquer coisa, mas sabe, a minha posição já não me permite essas andanças, prefiro antes lugares mais recatados, etc., mas a verdade é que todos se fizeram desentendidos, apenas sim, sim, o Grêmio é um lugar interessante, excelente para um copo, apareça qualquer dia, diga que vai como meu convidado”  

Viram que doideira? O texto fica muito mais dinâmico, mais corrido. O autor não pontua nenhum diálogo, não delimita em nada onde começa e termina cada fala e, apesar disso, usa o discurso direto. Isso foi o que mais me chamou atenção nesse que foi o último livro que li. “O Testamento do Sr. Napumoceno” é provavelmente a obra mais importante de Germano Almeida e faz parte da coleção de livros africanos de língua portuguesa que estou lendo. A história em si é bem bobinha, mas achei muito interessante essa maneira de narrar as falas dos personagens. E esse pequeno detalhe fez um livro que, de outra forma, seria totalmente dispensável e sobre o qual eu jamais comentaria, se tornar bem peculiar. 

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Esse texto foi publicado no Jornal Lago Notícias em junho de 2013. Essa e outras colunas podem ser acessadas em seu site.

terça-feira, 29 de abril de 2014

A flor de Drummond

Milan Kundera fala, em algum livro de que não me lembro, que não gostava de dar nome aos seus personagens. Eu, que compartilho desse sentimento, acrescento que só dou nome aos meus para fins de organização

Essa organização se dá pelo fato de eu não poder passar um texto inteiro chamando meu protagonista de "ele", sob pena de repetir o pronome infinitas vezes. Além disso, em um hipotético encontro que "ele" tenha com outros personagens homens, "ele" mais "ele" poderão virar tantos "eles" que ninguém mais saberá de quem estou falando.

Portanto, "ele" pode ser Gerson, Bruno, Vitor, Marcio… Só para organizar o discurso, nada mais. Batizar um personagem é um aborrecimento. Quando você o nomeia, você o mundaniza. Imagine que você cria um herói, alguém acima de sentimentos e atitudes mesquinhos terrestres, um personagem muito além de nós, meros mortais. Como chamá-lo? Juninho: pronto, matou o encanto, acabou a magia.

Talvez eu devesse fazer como os grandes escritores russos, que usam os nomes dos personagens como um acréscimo às suas características. Raskólnikov, por exemplo, é oriundo da palavra “raskolnik”, que significa "cisão" ou "cisma", o que nos leva ao "cindido" e "atormentado" protagonista de "Crime e Castigo". Karamázov provém de "kara", ("castigo") e "mázat", ("sujar", "não acertar", "pintar"). Mas, no português, isso não seria meio ridículo?

Imerso nessa limitação, acabo de desistir de um conto. Seria sobre uma pessoa – não sei se homem ou mulher – que não buscava mais jardins, mas, antes, apenas uma flor, algo como a flor de Drummond: aquela, que é feia, mas é uma flor. Isso, apenas isso, faz dele(a) alguém que não pode ser batizado(a). Como podem ver, nem mesmo seu gênero deveria vir à tona, por não ter nenhuma importância. Mas seria mesmo difícil falar dessa pessoa sem lhe dar um nome ou sem, no mínimo, decidir-lhe atribuir um "ele" ou um "ela". Portanto, esse ser existirá apenas no mundo das coisas que poderiam ter sido, mas não foram. Não são. Não serão. Uma pena, pois ficarei sem saber se a flor conseguiu furar o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio. Ficarei sem saber se a flor conseguiu ser encontrada.

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Esse texto foi publicado no Jornal Lago Notícias em março de 2014. Essa e outras colunas podem ser acessadas em seu site.

domingo, 9 de março de 2014

Literatura infantil

Que material de leitura oferecer aos nossos filhos? Eu, que não sou pai, já me faço essa pergunta, imagine quem já tem filho e se vê desanimado com as opções nas prateleiras infantis das livrarias. Não é mesmo fácil. Encontrar bons livros para crianças é uma tarefa das mais árduas.

A maioria das obras para esse público tem inúmeros preconceitos, visões reducionistas de mundo e horríveis moralidades (sempre deve haver a dita moral da história). Além disso, um outro erro comum desses escritores é achar que toda criança é idiota e que, portanto, deve-se usar um vocabulário muito reduzido. É verdade que não se deve fazer uso de nenhum linguajar super resbuscado, sob pena de aborrecer a criança e incentivá-la a largar o livro de lado, mas tratá-la como incapaz de entender um texto médio é, também, um erro. Admito, porém, ser complicada a tarefa de encontrar esse meio-termo. Percebo também o desconhecimento da faixa etária a qual se quer atingir. A partir de uns doze, treze anos, os leitores são classificados como infantojuvenis, mas, antes disso, são todos vistos como iguais. É como se um garoto de cinco anos se interessasse pela mesma leitura de um outro de dez ou onze. Além disso, não estou inteiramente convencido de que o exagero de ilustrações agrada a todas as crianças.

O famoso escritor Oscar Wilde se fez a mesma pergunta que nos perturba: o que dar para seus filhos lerem? Ele chegou à triste conclusão de que, em sua época, simplesmente não existia literatura infantil de qualidade. Solução: escreveu ele próprio os livros que seus filhos deveriam ler. Trata-se de pequenos contos que tinham como objetivo ensinar os filhos como viver, contos estes compilados em um livro chamado “Histórias de fadas”. O conto mais famoso do livro deve ser o sombrio “O rouxinol e a rosa”, que carrega toda a melancolia das histórias adultas de Wilde, só que para criança. Eu, pelo menos, preferiria que meu filho lesse isso, por mais sombrio que seja, em vez de livros bobocas infantis.

Outra famosa autora a já ter escrito para criança foi Clarice Lispector, com seu “O Mistério do Coelho Pensante”, conto bem legal, bem infantil (certamente bem menos controverso que o do Wilde). Além desses, tem outros renomados escritores que, embora poucos saibam, já se aventuraram pela literatura infantil. Para citar alguns: Mario Vargas Llosa (“Fonchito e a Lua”), Pablo Neruda (“Livro das Perguntas”), José Saramago (“O Silêncio da Água”), Mário de Andrade( “Será o Benedito?”), Jorge Amado (“O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá”), Anton Tchékhov (“Cachtánca”), Julio Cortázar (“Discurso do Urso”) e, por fim, há quem considere infantil “A Revolução dos Bichos”, de George Orwell, embora eu não ache que crianças pescarão as referências ao comunismo (ou estarei eu caindo no velho erro de subestimá-las?)

Enfim, sei que mais de 90% das opções disponíveis para seus filhos são horripilantes, mas não se desespere: o mundo deles pode ir além dos gibis e tem coisa boa no universo infantoliterário; é só dar uma pesquisada (se não em livrarias, quiçá no Google). Se continuar insatisfeito, faça como o Wilde e escreva você mesmo para seus meninos! Por que não?

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Esse texto foi publicado no Jornal Lago Notícias em janeiro de 2014. Essa e outras colunas podem ser acessadas em seu site.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

A idade certa para os livros certos

Não sei se já tive a oportunidade de dizer, mas “O Lobo da Estepe”, de Hermann Hesse, é um dos meus livros preferidos de todos os tempos, provavelmente em pé de igualdade com “O Apanhador no Campo de Centeio” e apenas um pouco atrás de “A Insustentável Leveza do Ser”, este, sim, líder absoluto das minhas preferências. Mas não é dessa listinha que quero falar. Quero me remeter é ao posfácio do “Lobo”. Nele, Hermann Hesse declara, 34 anos após escrever o livro, que esse foi seu romance mais incompreendido dentre todos os que escreveu. Diz ainda que, curiosamente, aqueles que menos compreenderam a obra foram justamente os que mais gostaram e que, inversamente, portanto, os leitores que melhor captaram a problemática da história não se sensibilizaram tanto.

Uma hipótese para essa incompreensão, levantada pelo próprio Hesse, é a de que “O Lobo” foi lido por muitos jovens leitores, embora tenha sido escrito quando o autor tinha 50 anos, tratando do que ele chama de “problemas peculiares a essa idade”. Eu, que pus o livro entre meus três preferidos e que o li quando jovem, me pergunto o quanto (in)compreendi da obra. E, mais, me questiono ainda: existem livros certos para idades certas?

Responder positivamente a tal questão é, como consequência, admitir que nem todos os assuntos podem ser tratados com todas as faixas etárias. Nesse caso, não poderíamos conversar sobre política com as crianças ou sobre desenhos com adultos, pela mera questão da idade. Responder que não significaria dizer que, de fato, com algumas pessoas não se pode falar sobre quaisquer temas, mas não por causa do binômio juventude/velhice, mas porque cada indivíduo tem campos de interesse diversos, que, independentemente da idade, variam por uma série de razões.

Para buscarmos essa resposta, nos embrenhamos em outra pergunta: a gente pensa porque sente ou sente porque pensa? Minha mãe, por exemplo, embora cinquentona, certamente não compreenderia patavinas do que o Hesse quis dizer, talvez porque pense menos nas questões levantadas no “Lobo” do que um jovenzinho de vinte e, justamente por não pensá-las, não as sinta. Porém, esse garoto de vinte anos, por mais que pense nas questões enfrentadas por um personagem de cinquenta, não as sente; conjectura sofrimentos pelos quais um quinquagenário, na realidade, pode ou não passar.

Sinceramente, não tenho a resposta. Tenho hoje 26 anos e, se me comparo com quando eu tinha 15, 18 ou 20, vejo mudanças, é claro. Li obras, quando eu tinha 17, que achei ruins, mas, relendo, passei a gostar (e vice-versa), o que fortalece o argumento da idade, mas, por outro lado, li sobre coisas que nunca senti e, mesmo assim, o autor conseguiu me transmitir uma empatia tão grande que me fez gostar do livro (“Os Sofrimentos do Jovem Werther”, do qual falarei em outras oportunidades e que li muito novo, é um exemplo disso).

Na busca por essas respostas, podemos nos surpreender e acabar descobrindo que os jovens podem ser mais conservadores que os velhos, que as crianças podem ser mais sábias que os idosos, que a aproximação, dia após dia, da morte, pode nos tornar mais ou menos sensíveis a determinadas questões. Eu só sei de uma coisa: no dia 15 de julho de 2036, quando eu completar 50 anos, faço questão de reler “O Lobo da Estepe”.

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Esse texto foi publicado no Jornal Lago Notícias em setembro de 2012. Essa e outras colunas podem ser acessadas em seu site.

sábado, 11 de janeiro de 2014

A dor de Fiódor

Hoje, vou falar de um cara que você provavelmente não gostaria de convidar para um churrasco na sua casa, mas que, enquanto escritor do século XIX, é um dos meus autores favoritos: Fiódor Mikhailovich Dostoiévski – ou, simplesmente, Dostoiévski.

O nome, que já bota uma enorme banca, não nos deixa enganar sua nacionalidade russa. Teve seis irmãos, seus pais morreram cedo (dizem que os servos assassinaram seu pai, cansados dos maus tratos recebidos), era epilético e foi preso na Sibéria, sob acusação de conspirar contra o governo de Nicolau I. Como se não bastasse ser exilado em um lugar tão "agradável" quanto a Sibéria, chegou a ser amarrado em um poste para ser fuzilado, mas, na última hora, teve sua pena convertida para prisão com trabalhos forçados. Outros momentos como esses estão em sua obra "Recordações da Casa dos Mortos" (um dos títulos mais impactantes que conheço).

A escrita de um sujeito desses não pode ser de flores e alegrias. Constantemente, se veem em suas obras temas relacionados a morte, humilhação, assassinatos, autodestruição e, no caso de "Os Irmãos Karamazov", o parricídio. Haveria relação entre o assassinato de um pai por um filho e a personalidade do pai do próprio Dostoiévski? Freud fala um pouco sobre isso no artigo "Dostoiévski e o Parricídio" e diz que considera "Os Irmãos Karamazov" o melhor romance já escrito na história. E não posso discordar. Deve ser a obra mais completa de Dostoiévski.

Em "Crime e Castigo", de novo um assassinato é o mote da história. Em suma, o protagonista mata uma velha, após roubar suas joias. Depois do crime, ele nunca mais consegue viver normalmente. A obra tem dois pontos que, para mim, são de sensível interesse. O primeiro é a sensação de que, dadas as características do personagem, tal delito poderia ter sido cometido por qualquer um de nós. O segundo é a psique do protagonista: em um dia, ele está bem; em outro, mal... em uma hora, culpado; em outra, mais tranquilo... Ele oscila a todo momento, de novo como nós, pessoas de carne e osso.

Por último, comecei a ler "O Idiota", obra que de novo traz um quê de autobiográfico, graças, dentre outras coisas, ao príncipe epilético que protagoniza a história. O curioso é que essa é a obra mais diferente dele. Tem uma atmosfera menos pesada, uma escrita menos truncada... Ao menos, até agora (ainda estou na metade). Ao contrário, na verdade, tem até um pouco de cômico e bem humorado. Vai ver esse humor repentino se deve à inusitada influência que Dostoiévski então sofria de "Dom Quixote de la Mancha". Se você analisar bem, o príncipe epilético e Dom Quixote têm muitas semelhanças e, assim como no romance de Cervantes, os capítulos de "O Idiota" se iniciam com uma continuação direta do capítulo anterior, como se não houvesse divisão nenhuma.

Então, esse é o simpático russo que muitos dizem ter criado o existencialismo, outros avaliam ter sido a maior influência de artistas como Machado de Assis, em sua fase realista, e que um terceiro grupo pensa que foi um cara simplesmente azedo mesmo. Seja como for, vale a pena ler. Não vou mentir: dá trabalho ler Dostoiévski. Não só pela narrativa, mas principalmente pela existência de tantos personagens, cada um com primeiro nome, nome do meio e sobrenome russos, mais um apelido que nada tem a ver com nenhum dos três nomes. É como se, em nossos romances, houvesse um Leonardo Xavier Bezerra e seu apelido fosse Zeca. Só que tudo em russo. É, cansa mesmo. Se você não lê muito, não comece por Dostoiévski ou vai acontecer contigo o mesmo que com Ronaldo Fofômeno, que disse que "leu Crime e Castigo, mas pouco compreendeu". Porém, não use isso como desculpa para não lê-lo. Anote como tarefa para o futuro.

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Esse texto foi publicado no Jornal Lago Notícias em dezembro de 2013. Essa e outras colunas podem ser acessadas em seu site.