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quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Devagar

Devagar, vou divagar
De vagar, vou me encontrar
De vagar, vou divagar
Devagar, vou me encontrar

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Poesia ridícula

Escrever poesia é um exercício
contra o incansável vício
de lutar em combate ao ridículo.
É como fazer teatro:
"Respire: um, dois, três, quatro".
O que pode ser mais vexatório
que o resultado final do somatório
de arte e revelação da subjetividade?
Escrever já é ridículo -
seja lá o que for -;
falar de umbigo, alegria e amor,
falar de amigo, nostalgia e dor,
mas poesia é algo ainda mais ridículo,
por ser a expressão exata do ventrículo
que leva todas as emoções ao coração -
e cá estou eu falando de coração:
o que há pior que isso?
Se a metáfora é gasta, é clichê;
o sentimento sempre é demodê.
E se o poeta ainda ousa recitar,
aí o ridículo já vira absurdo
e eu, se sou plateia, aturdo
meu ouvido que, infelizmente, não é surdo
e tem que ouvir as baboseiras de nem sei quem.
Poesia é uma coisa ridícula:
pior que uma carta de amor!
Que se importem os pobres bobalhões,
que não têm suficientes colhões
para mandar tudo isso ao inferno!

domingo, 17 de agosto de 2014

Vertigem

Parece vertigem,
mas é fuligem.
Parece nó, mas é pó,
só.
Parece nervoso,
parece ansioso,
parece ranzinza,
mas é a cinza
que acinza
a nuvem, o céu,
o véu, o mel,
o meu, o teu,
o prédio, a casa,
quem casa,
a igreja,
o muro, murmuro:
é o pó, é o nó,
já falei
que é só.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Feto

É fato que o feto da foto fui eu
O feto da foto de fato morreu
Farto fantasma do feto afeta
o homem feito que fita o fim.

A vida nos finta
e a fita é forte,
fortifica o que é fútil,
o fragor e o olfato!

Furtada a fortuna,
só fito o fugaz
Feito, o infortúnio
fratura e não faz.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Não é metáfora

Tinha uma luz no fim do horizonte
que se apagava aos poucos.
Não é metáfora: era mesmo uma luz.
Ele murchava junto,
se encolhia e sumia, devagar.

Repentinamente, a luz se acendia de novo,
a luz no fim do horizonte.
Não é metáfora: era mesmo uma luz.
Ele se erguia de novo,
estufava o peito e voltava à vida.

A luz se apagava e voltava,
se apagava e voltava,
se apagava e voltava.
Ele se encolhia e se erguia,
na mesma velocidade.

Mas quero deixar claro que
não é metáfora:
era mesmo uma luz.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Plataformas do metrô

O que separa a plataforma da direita da plataforma da esquerda
é muito mais que os vagões no meio.
Se uma é sentido sul e outra é sentido norte,
uma é sentido vida e outra é sentido morte.
Uma é o sentido da vida e a outra é também.
E esse sentido das coisas ninguém pode ou não quer ver.
Sentido, então, fico eu, triste e perdido,
pois parece tão óbvio:
o significado das coisas está numa estação de metrô.

Se o sol nasce numa plataforma,
em não muitas horas, se porá na outra,
para, então, nascer o outro sol em mim.
E as batidas em meu peito se tornarão mais audíveis
E os carinhos de tuas mãos se mostrarão mais temíveis,
pois na manhã seguinte aguarda-me outra vez a estação de metrô.
E se tuas mãos eu não mais tiver,
toda hora será como quando nasce o sol:
na plataforma sentido morte.

domingo, 24 de novembro de 2013

O morto e os cegos

Um odor ruim, embora suave,
emana na cidade.
Do solo aos ares,
em todos os lugares,
a náusea é inevitável.

Alguns sabem tratar-se de um cadáver,
mas a maioria não os crê,
nem mesmo pode ver
o homem morto esticado
na avenida principal da metrópole.

O trânsito é caótico
e transeuntes se acotovelam.
Há menos espaço nas ruas,
pois há um defunto de pernas nuas,
estirado sem ninguém o notar.

Não há sangue, é claro.
Se houvesse, já teriam reparado
no infeliz fedorento putrificado.
É morte limpa, mas incomoda
os cegos com hora marcada.

Verdade seja dita:
há aqueles que conhecem a origem
do desconforto, do mal estar e do fedor.
Mas não querem num morto as mãos pôr
nem ganham crença ao contarem o que veem.

O engraçado é que naquele lugar,
onde jaz o falecido diminuto,
ora ou outra tropeça um apressado resoluto,
que deduz ter sido uma pedra ou algo que a valha
o motivo de sua queda, mas jamais um defunto!